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Marie Rose Moro
marie rose Moro
Psychiatre, Professeur des Universités
Directrice de la maison des adolescents de Solenn, Hôpital Cochin
 

Dom Quixote ou Ulisses? Para uma clínica transcultural com os migrantes e as suas crianças na Europa




“Eu penso que o Homem não tem necessidade de ser salvo de si-mesmo; é suficiente deixá-lo ser ele mesmo. O mundo tem necessidade de homens, mais que de “humanistas””
Devereux (1981, p.20)


Deixar a sua casa, a sua família, ao seus amigos, a sua língua, os seus odores, os seus sabores, as sua cores para ir para um outro mundo geralmente sós ou quase, é uma experiência por um lado banal, tão velha como o mundo e portanto sempre comum. Ela não é apenas da ordem da grande viagem racional ou imperiosa, como a viagem de Ulisses, mil e uma vez repetida. Ela é de uma outra ordem sem nenhuma dúvida, basta ver esses homens e essas mulheres bravios que chegam ás portas da Europa vindos da África ocidental, por exemplo, repelidos nos aeroportos que tentam a sua sorte atravessando o deserto malien, argelino, marroquino para darem à costa nas costas espanhola magoados explorados ás vezes sem vida. A necessidade é exterior, é também interior. Decididamente o viajante moderno que chega á Europa bem temperada lembra mais o valente Dom Quixote que se bate contra os Moinhos de Vento e a adversidade que um Ulisses mesmo inspirado. E viagem continua aqui, em França, em Portugal, em Espanha ou algures…
 

1-    Histórias de encontros

 
 
As histórias apaixonantes são primeiramente colectivas. Contar um percurso quer dizer quem vos levou, quais são os encontros fundadores para vocês, de onde vem o que vos anima.Tal dá conta também da energia que pomos para dar vida a estas ideias. Compreendemos agora que estes engajamentos  não decorrem de escolhas bem definidas mas de uma necessidade absoluta de fazer viver aquilo que é o essencial dos vossos percursos. Pierra Aulanier, uma pioneira em psicanálise, dizia muito alegremente que um psicanalista tem nele uma interpretação essencial que ele declina ao longo de todo o seu trabalho e sem dúvida da sua vida. Essa interpretação essencial vem-lhe da sua própria história e da sua própria constelação individual, familiar, social, cultural com os seus avatares, as suas rupturas, as suas transgressões, as suas falhas também. Sem querer ir tão longe neste texto, tal exigiria um recuo e uma exterioridade que eu não tenho e que, por agora, eu não desejo realmente ter, eu vou tentar traçar quais os momentos fundadores da minha construção teórica e clínica, posso dizer de minha co-construção uma vez que acredito nas interacções entre o ser e o mundo e no efeito criador desses contactos.

Comecemos por essa fé inabalável na importância dos encontros para se construir a si mesmo.
 

 

Da velha Castela a Paris


Quando eu era criança e me perguntava porque é que o meu pai tinha deixado Castela, província espanhola árida, mas sublima, eu contava-me histórias que variavam no grau da minha imaginação que eu durante muito tempo tinha como verdadeiras. O meu pai deixou Castela pelos trinta anos para fazer fortuna no sentido existencial do termo, encontrar a sua própria fortuna. Ele queria que os seus filhos sobrevivessem e realizassem grandes feitos, em particular queria que os seus filhos se tornassem “doutores” o que era impossível na Espanha conservadora e reaccionária da época franquista para quem fazia parte do sub-proletariado. Ele próprio contou esta história muito tempo depois da sua viagem numa bela narrativa (moro M.R., Moro I. et al., 2004) mas o que me intriga depois de tudo é como é que ele chegou da velha Castela a Ardennes profundo. Por fim, imaginei, então, que no comboio que o levou a França, só, ele encontro uma mulher (porquê uma mulher?) que lhe falou de Ardennes, que lhe disse que lá havia trabalho para os homens corajosos como ele e essa mulher, que acreditou nele, desviou o seu caminho e o seu destino, em vez de parar em Paris onde já trabalha o seu cunhado, seguiu até…Charleville-Mézières, um fim de mundo, en sorte. Um encontro, um interesse pelo outro, uma hipótese sobre a coragem do outro e muda-se um destino, bela utopia de criança que trago sempre comigo e que, creio eu, constitui o meu ser terapêutico.

Naturalmente, eu sei, hoje em dia, que esta história é um romance familiar mas em que eu acreditei e sobretudo preservei durante muito tempo não apenas por romantismo mas sobretudo por utopia. Eu acredito efectivamente nos encontros que mudam o percurso de um destino, de uma vida, de uma causa e credito na força criadora das ilusões.
 
 

Uma avó indigna


Esta fé na força das ilusões também me foi transmitida. Dois seres vêm-me à memória a propósito – Serge Lebovici, meu mestre em psiquiatria da criança e do adolescente e em psicanálise e a minha avó paterna, Carlota.

Comecemos por Carlota. Ela vivia na velha Castela, sabem-no agora, num bairro fora do centro de uma vila histórica na fronteira com Portugal. Na família, amamos as fronteiras e as passagens. Ela vivia num bairro pobre da cidade onde se acumulava o sub-proletariado, o bairro de “ las casas baratas”, das casas baratas. De facto, nesse bairro as casas pertenciam ao estado que as dava ás famílias desalojadas, e essas casas, realmente rudimentares, pertencia-lhes até à sua morte. De seguida, as casas regressavam ao estado. Essas casas eram constituídas de 3 partes, uma era o local de vida, a cozinha, o outro o quarto onde dormiam os pais e as crianças e o terceiro espaço era um estábulo para os animais, uma vez estratégias de sobrevivência para aqueles que tinha os meios para manter os animais e calor para os Invernos rudes do planalto castelhano. Carlota tinha 5 filhos. Quando o meu pai tinha dez anos e a sua irmã mais nova nasceu, o seu pai morreu. Carlota fica sozinha com as suas 5 crianças, sem dinheiro, sem profissão. Ela não poderá resignar, ela que havia tido uma infância difícil, abandonada por um pai que partiu à procura de aventura na Argentina e por uma mãe tomada pela solidão. Carlota mantém-se de pé e ocupa-se assim-assim dos seus filhos que muito cedo devem pôr-se a trabalhar para permitir que a família sobreviva. Mas, ela passa por uma mulher indigna no seu barrio, o seu bairro. Cada vez que pode, ela desaparece deixando os pequenos sob a vigilância dos mais velhos e vai…ao cinema. Ela é apaixonada pelo cinema, pelo sonho, por essa outra realidade que ela vê nos ecrãs, por essa criação. Ela tem necessidade dessa ilusão, dessa transgressão também para sobreviver. Criticam-na, reprovam-lhe essa má vida e o que é visto como uma transgressão. Ela segue a sua ideia, ela tem a sua teoria de vida, essas teorias que eu procuro sem descanso nos meus pacientes mas também, devo confessá-lo, nos seres que encontro, que eu persigo por vezes, que eu cruzo mesmo furtivamente.

Eu sou apaixonada por essas teorias de vida que cada um de nós procura dar forma e que é o centro da nossa subjectividade e da nossa criatividade. E eu penso que tal vem-me dessa avó indigna que contra todos os preconceitos do seu barrio e da Espanha franquista, ia ao cinema para encontrar essa dose de ilusão necessária para continuar a viver, tão necessária, ou mais ainda, acreditando na sua história, que o leite ou o pão.
 
 

Uma pequena rapariga exótica de Beauvoir


O outro encontro poderei pô-lo sob o signo da necessidade a menos que seja a sorte que chamamos assim. Eu fiz os meus estudos de medicina e filosofia em Nancy no nordeste de França, cidade universitária próxima do lugar onde cresci. Sou muito feliz em Nancy, uma cidade acolhedora apesar a sua austeridade de fachada, numa cidade impressionante pelas suas pedras, as suas praças, os seus monumentos e portanto uma cidade alegre onde os estudantes gostavam viver e estudar. Faço medicina para cumprir o mandato do paterno «os meus filhos serão doutores» até hoje repetido mas faço filosofia também para satisfazer uma paixão adolescente, essa muito mais pessoal. Apaixono-me pela filosofia terminalmente, como se diz, logo depois de entrar na universidade. Difícil tão tardiamente mudar de via e honestamente, deve dizê-lo, nunca o pensei apenas por lealdade ao meu pai mas porque eu também não me projectava de outra maneira.

Eu tinha uma paixão de curandeira e sabia que não podia renunciar-lhe, nem por mim, nem pelo meu pai, nem pela minha avó Carlota que sonhava que eu me tornasse médica para que eu a curasse. Então, resolvi esse dilema pela multiplicação, fazer ambas. É daí, sem dúvida que me vem essa paixão por fazer várias coisas ao mesmo tempo, investir em mundos múltiplos, fazer passagens, as ligações, reconciliar o que parece diferente, fazer da diferença e do múltiplo, uma maneira de viver e de pensar. Eu via-me j+a médica sem fronteiras, andando pelo mundo inteiro para fazer medicina de emergência e tornar-me uma verdadeira «french doctor». E depois a filosofia apaixonava-me, sabem, aquela filosofia francesa das luzes, que se interessa pelos valores com uma certeza absoluta sobre a sua posição no mundo e uma tensão em relação á universalidade. Nos pensamos os valores universais na filosofia. Imaginem como uma filha de imigrantes como eu, podia estar fascinada por essa procura do universal e essa tradição filosófica que parecia ter encontrado esses universais. Essa formação filosófica ensinou-me bastante e em particular ensinou-me a construir as ideias, a defender as posições, mas ela revelou-se muito complexa para para chegar ao universal. Dirigimo-nos ao universal apenas através do particular.

Assim se preparava a minha dupla formação. Fiz psiquiatria para conciliar interiormente medicina e filosofia e prossegui a minha formação filosófica por uma formação em antropologia, do universal ao particular, portanto. Mas vou rápida, porque é preciso dizer que entretanto, decidi deixar Nancy para ir viver a paris e fazer a minha especialização em psiquiatria na capital. Esta ideia tive-a depois de muito tempo mas tinha sem duvida medo de me lançar na grande cidade imediatamente, eu que tinha crescido numa vila de duzentos habitantes. No entanto, um dia, Nancy tornou-se demasiado pequena para as minhas ilusões, eu sonhava ir fazer filosofia á esplanada do café Flore onde rodava então a sombra de Simone de Beauvoir e surpreendo-me a sonhar com o algures, o cosmopolitismo, os intercâmbios, os encontros com gentes diferentes, saberes múltiplos, a alteridade. E de uma só vez, a formação na província francesa pareceu-me demasiado fechada, não suficientemente múltipla, nem aberta ao mundo. Fui tomada por um síndrome que conhecia bem, eu que cresci tout prêt da sua cidade natal, a síndrome de Rimbaud. De facto, inventei eu o síndrome, mas não fui eu quem inventou esse sentimento que o poeta descreveu melhor que eu, aquele do apelo do distante. E como sabemos «Não somos sérios quando temos 17 anos…» j’en vais que quelques uns de plus.
 

Um tio iconoclasta e um avô curandeiro


Chego então a Paris sem armas nem bagagens. Começo a minha formação em, psiquiatria e procuro um psicanalista ou antes uma mulher psicanalista vinda de algures, por esses eram na altura os meus critérios de escolha. Quanto á minha formação em psiquiatria, ela revela-se mais movimentada do que eu imaginava. Rapidamente, eu sou escandalizada pelas representações que têm os profissionais da medicina e da psiquiatria dos migrantes e das suas crianças, e decido «inventar» uma maneira de fazer que tenha em conta essa alteridade mal compreendida por aqueles que têm o poder. Lanço-me então na ideia de uma clínica engajada que faça de outro modo com os migrantes e as suas crianças. Falo à minha volta e um amigo e um amigo muito querido diz-me prontamente «lamento desiludir-te mas a técnica já foi inventada pelos migrantes, eu fiz a minha formação em Bobigny e posso dizer-te que no serviço do Prof. Serge Lebovici há um psicólogo que desenvolveu a técnica da etnopsicanálise, chama-se Tobie Nathan. E é Georges Devereux quem inventou a teoria e o método». Antes mesmo de os encontrar, formou-se no meu espírito a ideia que se a técnica com os migrantes no ponto, devo ir aprende-la e ir para próximo das crianças da segunda geração começando pelos bebés. 

Chego como interna ao serviço de psicopatologia da criança e do adolescente de Avicenne e na primeira sexta-feira, dia de consulta, cruzo-me com Tobie Nathan no corredor e pergunto-lhe delicadamente:

 - «Posso ir á sua consulta para aprender a etnopsicanálise?
 - Mas quem é você?
 - Eu sou a nova interna do serviço
 - Ele responde-me imediatamente tomando-me pelos braços: você não pode, você deve!»

E eis-me instalada nesse lugar essencial para mim, um lugar iniciático. Nessa mesma noite, vou à faculdade onde trabalhava Serge Lebovici, do outro lado da rua, vejo-o muito ocupado mas isso não me impede de o abordar para lhe dizer:
 - «Senhor, eu quero fazer um trabalho de pesquisa sobre as crianças dos migrantes sob a sua direcção.
 - Eu não tenho tempo para te receber agora, mas vem domingo a minha casa ás seis horas e nó falaremos»
 - Eu vou ver a secretária e pergunto-lhe se se trata das seis da manha ou da noite, da manha sem dúvida, diz-me ela com um ar distraído achando-me provavelmente absurda. Peço-lhe a sua morada, o seu código e todas as coordenadas para chegar a sua casa, ela dá-mas sem dificuldade. À noite, eu pergunto a um amigo, sempre o mesmo que fez a formação e que me serviu como passador, se ele pensa que é de manha ou de tarde, ele diz-me sem hesitar, ele espera-te às seis horas da manha em sua casa e eu sei que ele nunca se atrasa.

No domingo de manha, de madrugada, ponho o despertador e estou em sua casa ás seis horas exactas. È ele quem me abre a porta, um pequeno bom homem com um olhar vivo e malicioso. Olha-me com muita benevolência e diz-me «Geralmente, não vêm!», penso então «Fiz bem em vir…». Ele leva-me por um grande apartamento majestoso e instalo-me com ele na cozinha. Arrisco comer, constato que ele come ameixas, tiro uma também, bebo um gole de café e eis-nos no centro da questão. Serge Lebovici não gostava de perder o seu tempo. «Então, você está aqui?» conto-lhe rapidamente que sou interna em Bobigny e que quero fazer um trabalho de pesquisa (DEA) com ele sobre «a vulnerabilidade dos filhos de migrantes» e acrescento como se fosse essencial «Eu própria sou filha de migrantes» mas interrompo-me muito rapidamente dizendo-lhe que ele me impressiona muito. Ele levanta-se e diz-me «veja, eu sou muito mais pequeno que você» e acrescenta «Não há mais ninguém que possa fazer esse trabalho em França, portanto, faça-o! Passe na segunda feira para me ver e mostrar-lhe-ei como recuperar os dados de uma investigação que fazemos neste momento e que pode lhe servir de base ²»
Ele não sabia nada de mim nem do meu percurso, mas ele disse-me o essencial para se tornar o meu director de investigação e meu mestre, ele permitiu-me acreditar que o podia fazer, com ele, em Bobigny e que tal me pertencia por direito. 

Estou então instalada em Avicenne onde me deixo impregnar pelo trabalho de Tobie Nathan (1986) fazia essencialmente com a primeira geração de migrantes, depois, eu amaciei o dispositivo que ele tinha posto em prática, diversifico-o e complexifico-o e, sobretudo, adapto-o à segunda geração de migrantes, os bebes, às crianças e aos adolescentes e às suas famílias.
 
 
 

2-    Avicenne, a andaluz: história de um encantamento


Descrevamos o dispositivo de Avicenne a Bobigny no subúrbio norte de Paris ³. Nessa consulta, trabalho com uma equipa de co-terapeutas (médicos e psicólogos mas também enfermeiros, trabalhadores sociais…), de origens culturais e linguísticas múltiplas, formados em clínica e a sua maioria em psicanálise e iniciados á antropologia. Fazemos consulta todas a semana individualmente e em grupo de terapeutas. Ser migrante não é uma condição necessária ou suficiente para fazer etnopsicanálise. O que é importante é ter feito a experiência de descentramento e familiarizar-se com outros sistemas culturais. O grupo permite que as experiências de uns e de outros se potenciem. É a aprendizagem e a prática íntima da alteridade e da mestiçagem que são procuradas e não a semelhança: um paciente kabyle não será recebido por um terapeuta kabyle…o dispositivo proposto e por natureza mestiço e centrada na noção de alteridade. 

Recebemos pacientes de todas as partes. Alguns vêm da africa Negra, outros do Magreb, outros ainda do sudeste asiático, das Antilhas, da Turquia, do Sri Lanka, da Europa central…
 
 

Um dispositivo mestiço e cosmopolita


Recebemos a maior parte das crianças e as suas famílias individualmente com a ajuda de um tradutor se necessário e nalguns casos fazemo-nos auxiliar por um grupo de co-terapeutas. Apesar de esse dispositivo grupal ser utilizado apenas numa minoria de casos, é esse que vamos descrever em detalhe por ser o mais específico; é esse também que nos permitiu experimentar novas abordagens; é esse, enfim, que levanta mais interrogações porque é o mais distante da prática habitual no campo da psicoterapia.

Um grupo de terapeutas recebe o paciente e a sua família (geralmente uma dezena de co-terapeutas) nas sociedades tradicionais, o indivíduo é pensado em interacção constante com o seu grupo de pertença. Daí a importante de um grupo na situação de cuidados de ajuda. Para além disso, a doença é considerada como um acontecimento que não diz respeito apenas ao indivíduo doente mas também á sua família e ao seu grupo. Consequentemente, ele é ajudado de um modo grupal: seja pelo grupo social, seja pela comunidade de terapeutas. O tratamento colectivo da doença permite um compromisso entre a etiologia colectiva e familiar da doença e uma etiologia individual.

Os cuidadores que nos enviaram a familia participam geralmente nesta consulta, pelo menos na primeira vez, na medida em que são portadores de uma «parcela» da história da família esta presença activa evita que a iniciativa transcultural seja um nova ruptura no caminho longo e muitas vezes caótico dessas famílias que têm, geralmente, um longo e difícil percurso terapêutico anterior

Para além destas funções – modalidade cultural da troca e da ajuda, co-construção dum sentido cultural – o grupo permite também uma materialização da alteridade (cada um dos terapeutas é de origem cultural diferente) e uma alteração dessa alteridade em alavanca terapêutica, no sentido de Devereux (1972) ou seja de suporte à elaboração psíquica. A mestiçagem de homens e mulheres, de teorias, de maneiras de fazer é um factor implícito do dispositivo.

Seja qual for o sintoma pelo qual nos consultam, seja qual for a idade do paciente, bebe, criança, adolescente, adulto, família e convidada a vir com o paciente, a envolvente é geralmente portadora duma parte do sentido.
 

 

A viagem das línguas


Para explorar os processos com precisão, dentro da sua complexidade e sua riqueza, a língua materna do paciente está presente na consulta se ele o desejar. O paciente tem a possibilidade de falar a sua ou as suas línguas maternas e nesse caso, um co-terapeuta que conheça a sua língua ou um intérprete traduzem. É de notar que o processo que parece ser eficiente é a possibilidade de passar de uma língua para a outra e não pelo regresso, por vezes artificial. A uma língua materna «fossilizada». De acordo com os seus desejos, as suas possibilidades e a natureza da narrativa que ele constrói, ele usa essa possibilidade de passar ou não pela sua língua materna. Aqui, então, é a ligação entre as línguas que é procurada.

Tendo dado a importância à tradução, empreendemos nos estudos sobre as modalidades de tradução na situação clínica. A primeira delas, feita em colaboração com um linguista S. de Pury Toumi, consistiu em refazer a tradução, fora  da situação terapêutica, o discurso enunciado pelo paciente por um segundo tradutor que revia a cassete da consulta que tinha sido registada e que retraduzia em condições bem diferentes da situação clínica. Ele tem muito mais tempo que na situação natural, ele pode parar quando queira voltar atrás, usar uma ajuda, mas sobretudo, ele não está incluído na relação terapêutica que modifica totalmente a sua posição (Moro, De Pury Toumi, 1994). Essa retradução era feita, comparávamos as duas versões o que por em evidencia o facto de que havia numerosas diferenças entre a tradução ao vivo e a posterior mas que, apesar dessas diferenças, o sentido global do discurso era bem partilhado pela tríade paciente – tradutor – terapeuta. Este último dado contradiz, é preciso dizê-lo alto e bom som, a ideia muita vezes entendida segundo a qual não podemos fazer terapia com um tradutor. De facto, é complexo mas confortável trabalhar com um tradutor – enquanto ele traduz, pensamos, sonhamos…

Além desta constelação global, o estudo pôs também em evidência a importância de vários processos que modificaram a nossa maneira de trabalhar dentro de um diálogo bilingue. Entrevistámos o tradutor da situação clínica sobre o que levou a essas diferenças, o que permitiu melhor compreender a parte do tradutor no dispositivo e os seus mecanismos de escolha e de decisão no momento da entrevista.

Assim, “o conhecimento cultural partilhado” permite exprimir-se por subentendidos e por implícitos, o que é fundamental uma vez que abordamos sujeitos difíceis – a sexualidades, as relações intimas entre as mulheres e os homens, mesmo entre pais e filhos mas também, em França, tudo o que toca o sagrado…

Trata-se em primeiro lugar de tomar consciência do facto que trabalhamos sobre um discurso traduzido e não enunciado (paciente/ terapeuta / paciente) e portanto um discurso mediatizado pela intervenção do tradutor o que implica integrar o tradutor dentro do dispositivo terapêutico e, portanto, de o formar na situação clínica transcultural.

Finalmente esse estudo pôs em evidencia a importância, para os terapeutas, as associações ligadas à materialidade da linguagem enunciada directamente pelo paciente mesmo se não a compreendermos. Este banho linguístico provoca em nós imagens e associações ligadas ao efeito próprio das palavras, dos ritmos, das sonoridades…a interacção faz-se com o sentido mas também com a própria língua e o universo que ela transporta.

A tradução é portanto não apenas uma intervenção mas ela participa no processo interactivo da psicoterapia na situação transcultural.

 

O terapeuta é também um ser cultural


Dentro deste dispositivo, é necessário instaurar, além dos mecanismos de análise da transferência e da contra-transferência «afectiva», uma modalidade específica de análise de análise da contra-transferência ligada á dimensão cultural. Outra razão para aquele tipo de consulta se desenrolar em grupo, meio de maior eficácia para analisar a contra-transferência cultural (Moro et Nathan, 1989). Concretamente no fim de cada entrevista o grupo esforça-se por explicitar a contra-transferência de cada um dos terapeutas para uma discussão dos afectos experimentados por cada um, os implícitos, as teorias…que conduziram a pensar tal coisa (inferências) a formular tal acto (intervenções).

Sabemos, tornar operacional a dinâmica da transferência e da contra-transferência foi a verdadeira revolução operada por Freud. Depois da elaboração do modelo clássico da cura. A palavra do sujeito é posta como acto da terapia, o suporte é então a ligação entre o psicanalista e o seu cliente, ou seja a transferência. A transferência designa então os processos pelos quais os desejos inconscientes do paciente se actualizam dentro do quadro da relação psicanalítico. Devereux (1967) alargou esta definição para a aplicar igualmente aos fenómenos ocorridos em situação clínica e de pesquisa em ciências humanas. A transferência tornou-se então, a soma das reacções implícitas e explicitas que o sujeito desenvolve em relação ao clínico ou ao investigador.

Inversamente, a contra-transferência do investigador é a soma de todas as reacções do clínico explícitas ou implícitas em relação ao seu paciente ou ao seu objecto de pesquisa. Dentro da contra-transferência, há como na transferência, uma dimensão afectiva e cultural. A contra-transferência cultural diz respeito a maneira como o terapeuta se posiciona em relação á alteridade do paciente, em relação ás suas maneira s de fazer, de pensar a doença, em relação a tudo que faz o ser cultural do paciente…Um Soninké tem insónias, assim que adormece, faz sonhos funestos. Ele consulta um curandeiro soninké em paris que lhe diz que ele foi atacado por espírito, um génio, um ancestral descontente. O curandeiro, o sábio, aquele que interpretou o sonho pediu-lhe então que fizesse um sacrifício. Qual é a minha posição interior em relação a esta narrativa? Dessa posição contra-transferencial decorrerá a minha resposta ao paciente. Ela condicionará a minha capacidade de entrar em relação terapêutica com ele. Eu devo portanto o estatuto epistemológico que atribuo a este material. Trata-se portanto, antes de tudo, da minha posição interior em relação a todos os ditos e o fazeres codificados pela cultura do paciente. A transferência e a contra-transferência cultural servem-se assim  
Da historia, da politica, da geografia…o paciente tal como terapeuta têm pertenças e estão inscritos dentro das histórias colectivas que impregna as suas reacções e das quais devem estar conscientes. Sem a analisa desta contra-transferência cultural, arriscamos passagens a actos agressivos, afectivos, racistas…assim, uma terapeuta mulher que não tinha chegado a entrar em interacção com um homem magrebino com quem ela está em conflito imediatamente – é a imagem da mulher que está em jogo dentro desta relação e o lugar cultural para o qual ele remete ou então uma jovem magrebina que convence a assistente social de o seu liceu a pôr em urgência num asilo porque o seu pai não deixa que ela se maquilhe. E a assistente social interrogada por esta precipitação dirá de boa fé «eles começam assim e nós não sabemos onde isto vai parar. Se ela é reenviada ara a Algéria, então, será tarde demais!» descentragem e análise da contra-transferência cultural são sem duvida os dois mecanismos mais difíceis de adquirir dentro desta prática cultural, mas os mais preciosos também.
 

Modificar os tempos


Um outro factor é modificado dentro do dispositivo, a temporalidade: as consultas duram aproximadamente duas horas, um tempo que parece necessário para que uma narrativa se desenrole na primeira pessoa a representação tradicional do tempo, do encontro e do percurso terapêutico.

Do mesmo modo, geralmente, as seguintes fazem-se sob a forma de consultas terapêuticas ou de terapias breves inferiores a seis meses à razão de uma sessão todos os meses ou todos os dois meses. Muito raramente, dentro deste quadro grupal são feitas terapias longas. Mas as terapias mais longas podem ter lugar em individual com um dos co-terapeutas se for necessário depois das consultas em grupo que permitem dar um quadro cultural ao sofrimento da família e iniciar o processo. Por vezes são feitas por um membro da equipa que acompanha a família ao mesmo tempo que as terapias em grupo.
 
 

A eficácia terapêutica


Os trabalhos actuais em etnopsicanálise mostram a boa adaptação desta técnica á clínica de imigrantes: ela obtém resultados terapêuticos profundos e duráveis. A existência de um dispositivo terapêutico complexo que se adapta a cada situação o descentramento cultural que nos compele a suspender um diagnostico demasiado rápido uma vez que é feito a partir de categorias diagnosticas ocidentais – confusão entre o material cultural como envoutement e um delírio, não percepção de um afecto melancólico sob um discurso cultural centrado pela feitiçaria – e a utilização do instrumento complementarismo conduz a uma multiplicidade de hipóteses etiológicas o que é sem duvida um factor eficiente deste dispositivo. Ele mostrou, com efeito, nos trabalhos actuais sobre a avaliação de psicoterapias que a capacidade do terapeuta em modificar as suas hipóteses de diagnostico é um factor geral de eficácia seja qual for a técnica.

Nos realizamos pela nossa parte vários estudos sobre a eficácia da técnica etnopsicanalítica para as terapias mães-bebés em situação transcultural (Moro, 1991; Moro, 1994; Moro 1998), para as crianças em idade escolar e os adolescentes, filhos de imigrantes (Moro, 1998, 2002; Deplaen, Moro et al, 1999). Além dos parâmetros já encontrados pelas equipas anteriores, nós pusemos em evidencia a importância da elaboração da alteridade cultural, da co-construção de um sentido com a família, o impacto da exploração de níveis ontológicos, etiológicos e terapêuticos para cada situação sobre a qualidade da narrativa, a importância de enunciar uma narrativa singular e contextualizada dentro dos mecanismo de mudança, a necessidade de trabalhar sobre as produções imaginárias actualizadas dentro da relação terapêutica para reconstruir essa transmissão pais-filhos e o interesse de trabalhar a conflitualidade interna das crianças submetidas a um certo grau de dissociação entre filiação e afiliação...assim esta técnica terapêutica comporta factores comuns a toda a psicoterapia como a mise en place de um quadro, a construção de uma narrativa...e também factores específicos ligados à natureza própria da técnica.

A última etapa deste trabalho será a construção de ligações entre estas hipóteses de sentido e sobretudo a possibilidade parara o paciente construir a sua própria narrativa apoiando nas representações várias. Assim, este dispositivo de cura (soins) que integra a dimensão psíquica e cultural de toda a disfuncionalidade humana não é propriamente um dispositivo específico, aos meus olhos. Será mais exacto dizer que se trata de um quadro terapêutico complexo e mestiço que permite a descentragem dos terapeutas e aos mesmo tempo, la prise en compte da alteridade cultural dos pacientes migrantes mas, de facto, interessante para todos, migrantes ou não, mestiços ou não.

Longe de ser obstáculo, a língua dos pacientes, as suas representações culturais, as lógicas culturais que os impregna, tornam-se então elementos do quadro terapêutico e fontes de criatividade tanto para os terapeutas como para os pacientes.
 
 

Quando propor uma abordagem transcultural


Quando podemos pensar que uma iniciativa terapêutica que integre a dimensão cultural é necessária? Esquematicamente, propomos dois tipos de indicações que seja para indivíduos - seja qual for a sua idade - ou para famílias, e quer sejam pacientes que migram eles mesmo ou filhos de migrantes.

Primeiramente, podeos propor uma certa psicoterapia aos pacientes em que a sintomatologia aparece como uma consequancoa directa da migração a curto, medio ou longo prazo; aos pacientes que apresentam uma sintomatologia codificada culturalmente: mise en avant de uma tyeoria etiologica cultural comno a feitiçaria, a possessão...ou quando o prprio sintoma é codificado dessa forma: transe, comunicação com seres culturais...Enfim, aos pacientes que exijam claramente uma descentragem cultural: eles evocam a necessidade de repassar pela sua língua, de se ocupar das “coisas do país”... Estas indicações dizem respeito tanto às primeiras como às segundas gerações desde que um dos parametros citados exista. Dentro de todas estas indicações, o dispositivo transcultural é susceptivel de funcionar como uma verdadeira máquina de fazer ligações entre o universo de pertença do paciente (aqui e lá) e para os filhos dos migrantes, entre o universo dos pais e este do exterior.

Uma segunda intenção, caso mais frequente na nossa consulta, diz respeito a quando o paciente já beneficiou de uma outra intervenção dentro de uma quadro clássico, propomos um dispositivo transcultural aos pacientes que vem de um sistema ocidental de cura (médicos, psiquiatras, psicoterapeutas….) a uma sistema tradicional (consulta de curandeiros no seu país ou aqui) sem poder fazer as ligações entre esses meios e sem qualquer verdadeiro trabalho de elaboração e de transformação da situação. Também o propomos a pacientes migrantes em errância que, depois de um percurso de tratamentos muitas vezes caóticos, são excluídos de todos os contextos de cura. Finalmente, a todos os pacientes que dizem não ser compreendidos, falam de mal-entendidos ou, às vezes, de falta de respeito à sua visão. Eles param leur prise en charge onde recusam, para a família ou os filhos, todo o novo projecto de tratamento.

Enfim, como toda a técnica psicoterapêutica, a etnopsicanálise reconhece limites: gerais, aqueles de todas as psicoterapias e específicos: não preparação do paciente do paciente e da sua família para a elaboração da alteridade cultural que é negada ou rejeitada; pacientes em ruptura com os seus grupos de pertença ou então, necessidade de uma elaboração individual do sofrimento psíquico. Neste caso, propomos antes terapias individuais clássicas sabendo que o manejo do material cultural não pode ser feito individualmente., ele pode ser simplesmente contado e esclarecer a narrativa. A primeira consulta deve negociar o quadro e a forma a seguir: todas as semanas, todos os meses, todos os dois meses. Esta consulta inicial serve para definir todos os elementos do quadro.
 

Nem mágico, nem exótico, uma pratica do laço para todos


Assim, as representações culturais dão um pré forma às representações individuais e servem de canal semântico para a construção da narrativa, são os verdadeiros princípios das narrativas. Os meandros dos desejos do ser humano e dos seus conflitos nutrem, neste domínio como noutros, a extraordinária diversidade humana. L’enjeu reste cependant celui da introdução deste tipo de representações culturais dentro dos nossos utensílios de tratamento.

Nem mágico, nem “demoníaco”, a etnopsicanálise como toda a técnica psicoterapêutica reconhece indicações e os limites que é necessário precisar longe das paixões ideológicas obscurantes. A clínica transcultural não é uma clínica reservada aos peritos ou aos viajantes. Ela pertence a todos o que se dão ao trabalho de uma formação rigorosa e múltipla.
 

As condições da subjectividade


Põem-se a gora uma questão importante que a do ajuste do quadro necessário sem o dispositivo transcultural para certos pacientes migrantes e seus filhos: este quadro não é indispensável para todos os migrantes mas para outros o tratamento não poderá ocorrer sem ele – é necessário então avaliar a necessidade. Podemos citar certos implícitos culturais, não forçosamente partilhados, que obrigam por vezes a rearranjos mesmo dentro de um quadro não específico: a relação dual ne vas pás de soi para um paciente vindo de uma cultural não ocidental onde o individuo é pensado em interacção constante com os seus grupos de pertença (Família, comunidade…) esta relação dual é por vezes vivida pelo paciente como violenta e intrusiva. Se este for o caso, é necessário reconstituir com ele as condições da sua intimidade, as condições do desdobramento da sua subjectividade importa agora introduzir a noção de grupo pedindo ao paciente para vir com quem ele escolha, e ele próprio, de mettre en place as entrevistas com uma outra pessoa que siga o paciente (o que, por exemplo, é fácil numa instituição).

Do mesmo modo, a técnica de entrevista deve ser pensada: as perguntas, todas as perguntas mas sobretudo aquelas sobra a intimidade, sobre o interior da casa, sobre a vida de casal, sobre o privado…mas também as questões sobre os aspectos culturais pensados como allant de soi para os pacientes como a poligamia, os rituais… todas as formulações interrogativas que pressupõem da nossa parte implícitos, não as realizamos. Todas essas formulações são muitas vezes sentidas como violentas, intrusivas, deslocadas, absurdas, mas ás vezes também indelicadas por não respeitarem as regras culturais da troca: ordem das gerações, diferença de sexos, lugar respectivo dos filhos e dos pais…as questões são muitas vezes demais e em vez de propor questões, é mais útil propor as suas próprias representações para permitir que uma narrativa se desenvolva ao ritmo do paciente. Das mesma forma, sempre para favorecer a narrativa, importa respeitar a ordem cultural da família: por vezes, pode ser difícil ter acesso à mulher, á mãe sem pedir a autorização do marido – querendo por vezes permanecer leal ao seu marido, ela não poderá exprimir-se livremente, convém, então, negociar esta autorização para que ela possa vir às entrevistas, à escola, ao dispensário e exprimir-se á sua maneira. Estes exemplos não devem ser tomados como regra, receita ou nova restrição para as mulheres, os homens, as famílias migrantes e os seus filhos. Estes elementos de base devem ser conhecidos e entrar na negociação do quadro de todo o trabalho.

Existem, com certeza, outros pontos como a introdução da língua materna do paciente, a análise da nossa contra-transferência cultural. Tudo aqui é possível dentro de todo o quadro de tratamento, ou pode tornar-se, desde que estejamos convencidos da sua eficácia. Aqui como noutros lugares, o pensamento precede o acto.

 

Experimentar a diferença


Outros parâmetros decorrentes do quadro de transcultural podem ser integrados dans les lieux, não específicos em função da personalidade do clínico, do seu à vontade com este ou aquele elemento, do contexto da prática clínica…como a modificação da temporalidade (consultas mais longas), a constituição de um pequeno grupo de co-terapeutas, a importância nas terapias de começar por construir um sentido cultural que integra as hipóteses dos pacientes …Mas para introduzir progressivamente todas estas modificações nos contextos de prevenção e de cura, é necessário explorara sua pertinência e a sua formidável eficácia a partir da experiência de outros ou dar-se a si mesmo os meios para experimentar.

Toas estas aprendizagens, fazemo-las colectivamente em Avicenne, fazemo-las graças a esse formidável local de encontros em que se tornou essa consulta transcultural. É um empreendimento verdadeiramente colectivo e cosmopolita. Os meus colaboradores são actualmente muito numerosos, uma vintena de terapeutas em permanência e mais todos os que passam, trabalham uns tempos, repartent num terreno, regressam aos seus países de origem ou trabalhar noutro lugar. Há também muito estagiários ou convidados que trazem o seus olhar novo sobre este espaço terapêutico aberto à cidade e ao mundo. Todos trazem algo mais, de diferente, ao trabalho empreendido, à Avicenne a andaluz.

A possibilidade de trabalhar neste lugar cosmopolita e o meu velho sonho de me tornar “médica sem fronteiras” levaram-me a trabalhar depois de 1987 com os Médicos Sem Fronteiras et lá, à y montar a primeira missão de saúde mental no quadro de uma organização medica internacional (Moro, 2002). É Avicenne que me deu a força de partir para ver se as ideias e as maneiras de fazer experimentadas aqui avec encore de la chaire lá-bas. Depois de 1987, trabalhei num vintena de países diferentes constitui em Avicenne uma equipa de psiquiatria humanitária (Bauber e tal, 2003). Façamos uma ronda por uma dessas missões, a de Cabul.
 
 
 

3- Bobigny e o mundo


Julho de 2002, um posto de saúde de Pul-l-Charki, um campo de refugiados, em linguagem internacional, de “retornados” perto de Cabul que acolhe transitoriamente as famílias afegãs que regressam ao seu país depois de 25 anos de guerra. Eles voltam essencialmente do Paquistão.

Ao pedido de médicos, eu vejo alguns pacientes em consulta, en peu à l’ecart, no espaço reservado habitualmente aos acolhimentos.
 

 

Fantasmas na cabeça de um bebé


Uma jovem mulher, bela e cuidada, chega com um bebe de um ano aproximadamente. Ela é acompanhada pelo seu irmão que manifestamente toma conta dela e do seu bebe.
 
 
Uma dor muito estranha

O bebe está mal da cabeça, diz a mãe. Algures, ela fez-lhe uma pequena ligadura á volta da cabeça para o aliviar e para nos dizer onde sofre a criança. Mas como sabe ela que a criança sofre da cabeça? Pergunto-me. Não digo nada, é o médico que faz agora a consulta. Ele verifica a sua nuca, ela está flexível, ele verifica-lhe a temperatura, ela não tem febre, ele pergunta se ela vomita, ela não vomita. A jovem mulher, já viúva, está bem cuidada e maquilha, como o bebe que também está bem vestido. Ele tem febre durante a noite, o médico dúvida da febre de noite mas compreende que a estrada é longa e que eles estão fatigados. Irão eles chegar a Mazar – i-Charif e o que vão eles encontrar lá?

Ele vira-se então para mim e diz, quer ver? A senhora e o seu irmão aceitam voluntariamente estar comigo. Eles saúdam o intérprete. Mudamos de lugar de consulta para estarmos um pouco à parte; há muitos pacientes que aguardam e muito ruído. A mãe senta-se com o bebé nos joelhos, o irmão fica perto dela, atrás. Eu penso interiormente: ele não quer sentar-se, ele vela, ele monta a guarda junto da irmã e do bebe. Avant de faire connaissance, pergunto-lhe como ele sabe que o bebe sofre na cabeça. Neste início da entrevista, ele não responderá. Se eu não compreendo, como vai ela explicar-me? É assim em todos os lugares, as perguntas que fazemos que pressupõem que nós não sabemos, são as questões que os pacientes não respondem. D’ailleurs en geral, nós pomos demasiadas questões.
 
 
O Exílio de Zeineb e o seu desespero

Zeineb, é o seu nome próprio, fala num tom monocórdico, ela olha às vezes o seu irmão que está sentado ao lado dela. O pai deles foi morto há uma dezena de anos. A mãe deles foi morta por tiros quando ela foi a Cabul para pedir uma pensão depois da morte do seu marido. O irmão e duas irmãs estão agora decididos a partir para se juntarem a um tio que era refugiado no Paquistão em Islamabad – um irmão do pai. Eles encontraram o tio com muitas dificuldades. O tio aceitou de má vontade ter a seu cargo as duas sobrinhas e o sobrinho. Ele decidiu vender a loja do pai em Mazar – i-Charif para casar Zeineb – a mais velha das filhas, ela tinha 14 anos – com um paquistanês. Zeineb comove-se ao falar deste assunto. Ela olha o irmão e diz “O meu tio vendeu-me a um paquistanês como se vende uma vaca!”. Zeineb era muito infeliz na família paquistanesa, eles maltratam-na e insultam-na dizendo-lhe “as mulheres afegãs fora todas violadas no caminho, são prostitutas…” Para além disso, ela viu muito pouco o irmão e a irmã e era muito infeliz. O seu marido era um homem muito mais velho que ela. Ela era a sua terceira esposa. Alem do mais, o seu marido estava doente e, ela di-lo muito directamente, era impotente. Rapidamente, a sua sogra vão condená-la de não terem filhos e de ser estéril. Zeineb diz que não é estéril, mas nada pode ser dito sobre o seu marido. Ele começa também a ter vontade de ter um filho para não estar mais sozinha no meio daquela família estrangeira que a insulta e onde ela pouco percebe a língua. Ela chora desde que está só, escapa-se várias vezes para visitar a irmã e o irmão mas é violentamente repreendida pelo tio. Ele decide então fazer um filho com um homem afegão, um vizinho que lhe agrada e a quem ela sabe que agrada também. Ela terá essa criança, uma bela filhota que ela nomeara com o nome da sua mãe. O seu marido sabe que esta criança não é sua, pouco lhe importa, ela nega tudo. O marido maltrata a Zeineb, bate-lhe no ventre, injuria-a. O bebe nascera assim mesmo. Zeineb está cheia de alegria: com a bebe que ela quis contra tudo e contra todos, ela não voltará a estar só. O seu marido de uma doença cardíaca alguns meses mais tarde. Ela regressa então á casa do tio com a criança, a família paquistanesa “não a quer!” muito felizmente para ela, acrescenta ela com humor. O tio está um pouco descontente, nenhuma pessoa está lá para lhe dizer que ele deve respeitar as regras naquelas circunstâncias: a guerra permite tudo, mesmo as transgressões e rompe os constrangimentos, mas também as solidariedades. O tio quer agora “vender” a sobrinha mais jovem a um outro paquistanês que a pede. Ela não quer. O irmão opõe-se agora ao tio. Zangam-se. O irmão e as duas irmãs decidem partir para Mazar-i-Charif. A jovem irmã morreu no caminho de regresso. Ela tem diarreia, depois vomita, ferve. Ela morre. È enterrada no Afeganistão na fronteira com o Paquistão.
 
 
Brincar o sofrimento, exorcizar

Zeineb olha-me agora bem nos olhos e diz-me: “Você compreende, eu estou mal da cabeça e o bebe também.” Eu compreendo realmente, como ela pode saber que o bebe sofre na cabeça, é uma projecção da sua própria dor. Pergunto-me como intervir “em urgência” naquele meio, com a certeza que não a verei uma segunda vez. Digo-lhe: “Eu talvez possa ajudá-la a fazer sair a tristeza e os maus pensamentos que a habitam depois da morte da sua irmã. Vamos jogar (proponho-lhe fazer um pouco de psicodrama). Eu faço de sua irmã e você faz de si mesma!” E para marcar a decisão ela põe a filha nos meus braços e fica de pé. Ela representa a irmã e repreende-me de a ter feito morrer, de a ter morto, de ter tomado uma má decisão, a de partir, de não pensar senão ela própria…esta culpabilidade é expressa muito directamente. Ela acalma-se e acrescenta: “Mas eu compreendo a tua decisão, é melhor morrer dignamente que viver vilmente!” Ela toma a bebe dos meus braços, senta-se e significa que o jogo acabou. Eu não disse nada, seria inútil, o essencial foi dito pela Zeineb. Ela levanta-se e parte preocupada com as coisas a fazer no campo. O irmão, que até aí não havia falado, agradece-nos, agradece aos MSF “Obrigada por estarem no nosso caminho” e vai-se também, procurar dinheiro da família que o HCR lhe deve dar.

Eu fico impressionada pelas palavras de Zeineb, pela sua coragem, pela sua capacidade de utilizar o que se apresenta no seu caminho, seja a sua decisão de fazer uma criança ou a sua maneira de utilizar o quadro terapêutico. Uma bela lição de vida para aqueles que a ouvem e a prova que mesmo no campo de passagem pequenos momentos roubados ao quotidiano difícil das famílias podem tornar-se significativos.
 

A mulher tocada pela sombra negra


Uma mulher que aparenta uma idade entre os 50 e os 60 anos chora na fila de espera. É raro, geralmente na fila, as pessoas procuram passar, agitam-se, falam…São muito activos. A senhora chora, em silêncio, sem ostentação, o que chama a atenção do médico que lhe propõe vir ver-me.

Eu vivi coisas más, eu quero esquecer

A senhora não usa o chadri, apenas um pequeno véu sem cor sobre a cabeça e um vestido negro, usado e sujo. Na realidade, ela não tem mãos que 40 anos, apesar de aparentar muito mais. Ela fala num tom resignado e profundamente triste. Eu estou mal. Eu não compreendo o que se passa depois de oito meses, tudo vai mal. Dói-me a cabeça, a parte de trás da cabeça, quando começa, não consigo fazer nada. É verdadeiramente doloroso. Os médicos do Paquistão deram-me medicamentos mas não me aliviam. Deixei o Afeganistão há muito tempo, já não sei quando. Vivi no Paquistão muito tempo, demasiado tempo. Perdi o meu marido e o meu filho. Antigamente ocupava-me de tudo, agora não chego a lado nenhum. Pergunto-lhe se ela consultou alguém que saiba. Ela respondeu-me com o tom da evidência: «Claro, consultei um Íman no Paquistão, ele diz que é a sombra negra que se abateu sobre a minha família. Ele fez protecções mas eu não tenho mais forças, eu estou fraca. No Paquistão eu vivi coisas más. Eu quero esquecer» Pergunto-lhe quem é o homem da família: ninguém. Ela perdeu muitas crianças com idade precoce no Afeganistão, ela perdeu durante a guerra o seu marido e o seu filho e partiu para o Paquistão com a sua filha. Uma vez chegada, a vida era difícil sem homem mas ela tinha muita força e coragem. Ela conseguiu então reorganizar a sua vida fazendo tapetes com a filha. A vida era dura, mas possível. Depois de oito meses, ela não tem coragem para fazer nada. O que se passou há oito meses? Há aproximadamente esse tempo, ela casou a filha com um paquistanês que vivia perto delas em Peshawar. «Já era tempo de ela se casar, tinha 23 anos», diz a senhora. Ela recusou várias vezes a sua mão porque a queria manter perto dela, com ela. Queria então com ela em Bâmyân de onde a família é originária e onde têm a casa familiar (foi sem duvida destruída mas o terreno existe, diz ela, com uma certa animação de volta) Ela espera poder voltar com a filha. Há um ano, os homens da comunidade intervieram e disseram: «É necessário que cases a tua filha». Leila, a sua filha, não tinha muita vontade de deixar a mãe, mas tinha chegado o tempo de ter um marido e filhos. Ela casou, então, a filha com um homem jovem, doce e gentil mas cuja família não é de Bâmyân Assim que os familiares afegãos começam a levantar a questão põe-se a questão de saber como fazer. Triste e deprimida depois da partida da filha, ela não vê outra solução, voltar a Bâmyân. Mas o marido e a família não o entendem assim, Leila deve voltar também, mas com o seu marido no plano de Shamali. A senhora compreendeu que está irremediavelmente só e que deve fazer o seu caminho, só.
 

 

Partir, voltar a partir, esse é o meu destino
Uma manhã, ela juntou algumas coisas e partiu num desses camiões coloridos que vão para Cabul. Na véspera disse á filha «Parto para Bâmyân dizer ao teu pai que a vida continua através de ti e dos teus filhos Sê digna da tua família» De Cabul, ela encontrará o meio para chegar a Bâmyân sem dúvida para morrer mais dignamente. «Eis, diz ela sombriamente, porque choro eu». A guerra levou-lhe os seus homens, o exílio a filha. As migrações perturbam as modalidades de aliança (casamento) e os elos intergeracionais. Como fazer para manter o modelo de família alargada que permite as solidariedades entre as gerações quando se casam, ao longo das etapas de exílio, a filha tem um homem que vai partir com a sua família para algures. Renunciar à sua aldeia natal, ela não pode, porque o seu marido e os seus filhos estão enterrados lá, e ela tem necessidade de rever Bâmyân. Além do mais, viver com a filha na família do seu marido, parece-lhe contrário ás regras habituais. Condenada a regressar sozinha ao berço da família ou a morrer no caminho. A senhora não tem medo de nada, em todo o caso, não da morte, talvez da solidão…que fazer contra esta sombra negra que a habita depois da partida da sua filha e contra a qual as práticas tradicionais parecem tão ineficazes como os tratamentos dos médicos. Eu ponho-lhe directamente a questão no fim da nossa conversar longa e comovente – eu pressinto bem os limites da nossa acção médica e psicológica sobre estas modificações dos elos, consequências indirectas da guerra. Ela diz-me «Você viu-me chorar junto dos outros e fez-me entrar aqui onde pude chorar sem vergonha. Você escutou-me longamente e sem impaciência. Sem duvida você não pode fazer mais nada por mim senão deixar-me partir para Bâmyân um pouco menos pesada que antes. Eu contei-lhe o que vivem os Afegãos uma vez que têm que deixar a sua terra.» Ela assoa-se no seu véu, seca as suas lágrimas, toca-me na mão e dá-me um verdadeiro sorriso. Não digo mais nada, não proponho nada mais, deixo-a partir num passo determinado e digo-me, agora não me resta mais nada para me manter fiel ao compromisso tomado, testemunhar a sua história e a dor dos Afegãos que deixam a sua terra natal.


Se duvidamos do valor dos testemunhos individuais, das histórias contadas ao longo de um encontro ou de um momento de emoção, essa mulher da sombra negra que não me disse o seu nome, a mãe de Leila, é talvez assim que ela queria ser chamada, evidenciou-o magistralmente, na primeira pessoa do singular.

Essas idas e vindas entre a Europa multicultural e o mundo atravessado de roturas dão-me um certo cepticismo ligado ao serviço da clínica do quotidiano, estando ela dentro dessa diversidade, essa complexidade, as suas redondezas e as suas asperezas também.

Marie Rose Moro




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